A Família Terra Cambará

O Continente

Já faz um tempinho que eu quero escrever sobre um dos melhores livros que eu já li, “O Continente” de Érico Veríssimo.

Acredito que quase todo mundo, principalmente aqui do Rio Grande do Sul, já leu esse romance. Eu li a primeira parte verão passado, e agora estou no meio da segunda, que conta a história da família Terra-Cambará, dos filhos e netos do querido Capitão Rodrigo Cambará.

Demorei pra achar um pecado que se encaixasse à qualquer membro da família, pois para mim todos são heróis e nada do que eles fazem parece errado. Mas hoje, após ler a cena da morte de Bolívar Cambará, ficou tudo muito claro. O pecado que podemos relacionar com os gaúchos das histórias de Érico Veríssimo, e que tanto admiramos, é a IRA.

D. Bibiana,no capítulo “A Guerra”, sintetiza bem a mistura dos traços das duas famílias: os seus descendentes e de Rodrigo herdaram a reserva e discrição dos Terra e o temperamento explosivo e violento dos Cambarás.  “Nenhum homem Cambará morre na cama.” - já dizia o Capitão.

A intolerância e a coragem dos nossos heróis fazem romper em gestos violentos as insatisfações, manifestando em situações mais estressantes verdadeiros ataques de ira.

A cena da morte a qual me refiro é o mais genuíno retrato desse sentimento. É um acúmulo de desgosto e aflição que amadurece no peito de Bolívar em uma semana, devido a sua condição de quarentena imposta pelo velho inimigo da família e autoridade de Santa Fé, Bento Amaral. O guerreiro sai como um furacão pelas portas do Sobrado, que estão vigiadas pelos capangas de Bento,  com a espingarda em mãos, gritando que pode vir quem for, quer acabar com a raça do Amaral, por sua marca do outro lado do rosto do homem (pois seu pai marcou o mesmo homem com um P de um lado do rosto, não foi possível puxar a  perninha do “R”). Começa um tiroteio na praça entre ele e quatro, cinco capangas, e ele morre com um tiro na cabeça.  É tudo muito intenso e rápido, e o comportamento de Bolívar é totalmente impulsivo e irracional Ainda sim, torcia para ele conseguir chegar na casa de Bento e desenhar-lhe um B do outro lado da face.  Porém, de um parágrafo para outro, Bolívar cai morto, mergulhado com a cara numa poça de sangue.

Isso é  a IRA: A inconsequência, o impulso, o excesso de raiva, de revolta, o cansaço. É tudo isso transbordando para fora do corpo em alguns momentos de delírio violento.

“- Chegou a guerra. Agora não tem mais jeito. Eu já disse que saía e saio mesmo.

-Rodrigo! – gritou Bibiana Imediatamente corrigiu-se: – Bolívar!

[..]

- Que venha Bento Amaral! -gritava o filho do Cap. Rodrigo -Que venha esse canalha ladrão covarde corno! Que venha se é homem!  Que venha a capangada.

De pistola erguida, Bolívar caminhava  devagar mas implacavelmente[...].

- Que venha mais! Dois é pouco! Que venham!

Num dado momento os tiros cessaram e fêz-se um silêncio pressago. Bibiana deixou cair a cabeça pra trás.

Bolívar estava caído de borco no meio da rua, com a cara metida numa poça de sangue.”

- postado por Vitória Campos

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~ por agmvbeta em novembro 1, 2010.

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